O que é o amor?
29/4/2009 - 11:33
Curioso é ir a palestras e cursos sobre este assunto e ver que quase que 99% das definições sobre o amor versam sobre outras coisas que não são necessariamente o amor. Mais curioso ainda é ver que de um modo bem geral a grande maioria da população também acredita nisso. Geralmente estas definições versam sobre quatro aspectos:
a)Os elogios metafóricos e exaltações do amor. Este modo de pensar sobre o amor e a paixão é caracterizado pela proposição de sublimes conceitos associados ao amor. Um exagero de um processo humano e normal mediante comparações ou de expectativas propositadamente exageradas. São as organizações de frases mais comuns que costumamos encontrar.
Exemplos: “O verdadeiro amor nunca se desgasta. Quanto mais se dá mais se tem.” (Antoine de Saint-Exupéry); “O amor é o sentimento dos seres imperfeitos, posto que a função do amor é levar o ser humano à perfeição. Como são sábios aqueles que se entregam às loucuras do amor!” (Joshua Cooke); “Vós, que sofreis, porque amais, amai ainda mais. Morrer de amor é viver dele.” (Victor Hugo); “Deus, para a felicidade do homem, inventou a fé e o amor. O Diabo, invejoso, fez o homem confundir fé com religião e amor com casamento.” (Machado de Assis). O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar. “O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.” (Carlos Drummond de Andrade).
b)A sensação e a emoção que o amor causa ou gera na vida social. define-se pelo modo como o amor é explicado pela adição e comparação com sensações e emoções, como o fato de ser bom ou fraternal, etc.
Exemplos: “A amizade é um amor que nunca morre.” (Mário Quintana); “O amor começa quando uma pessoa se sente só e termina quando uma pessoa deseja estar só.” (Léon Tolstoi). “Todas as paixões nos levam a cometer erros, mas o amor faz-nos cometer os mais ridículos.” (François La Rochefoucauld). “O ódio tem melhor memória do que o amor.” (Honoré de Balzac).
c)Confabulações filosóficas e teorias sem muito sentido empírico. São as mais perigosas à conduta humana visto que são organizadas em forma de regras e que, quase sempre, tem pouca validação real. Podem expressar preconceitos e até distorções sobre o amor. Quando fazemos algo errado no mundo amoroso geralmente é a elas que nos referimos.
Exemplos: “Somente quando encontramos o amor, é que descobrimos o que nos faltava na vida.” (John Ruskin). “Não peca quem peca por amor.” (Oscar Wilde). “O amor é a compensação da morte.” (Arthur Schopenhauer). “O amor é a primeira condição da felicidade do homem.”(Camilo Castelo Branco).
Também entra nesta classificação a definição clássica de amor vista na ciência que está mais para confabulação filosófica do que ciência em si, como as que dividem o amor em amor Eros, amor Storge, Amor Philia, Amor Yin, Amor Yang, Amor Fático, Amor Consumado, Amor Ai, Amor Qing, Amor Lian, etc.
d)Uma loucura ou a falta de sentido e definição. É a mais exagerada e sem sentido comparação que existe. A comparação do êxtase de amar como alguma forma de descontrole emocional ou justificadora de atos loucos.
Exemplos: Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura. (Friedrich Nietzsche). “O amor é um não sei quê, que surge de não sei donde e acaba não sei como.” (Madeleine Scudéry).
A mais comum definição de amor é a de Camões eternizada por R. Russo: “Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer”. Para um psicólogo que recebe um paciente falando isso, supondo que o psicólogo fosse aculturado, a hipótese de diagnóstico certamente versaria sobre esquizofrenia.
Quando Fernando Pessoa diz: “Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?” Ele não está indo a lugar nenhum senão permanecendo no mesmo estado da arte do estudo do amor que antes. Não cria mais conhecimentos para a discussão mais amadurecida das práticas amorosas (mas é Fernando Pessoa e por isso pode ser perdoado).
E você? Qual a sua definição de amor?
A Dor da Separação
3/3/2009 - 20:37
Saber lidar com a dor da separação não é uma lição que nem todos gostariam de aprender. Quanto mais forte for a vinculação entre duas pessoas mais dolorida é a dor e mais difícil é a recuperação. No entanto sabemos que a recuperação irá depender de três fatores fundamentais: as habilidades sociais da pessoa (o quanto ela é capaz de continuar com a sua vida de modo adaptativo), a quantidade de exposições a situação estressante e a perspectiva de uma nova possibilidade de vida.
As habilidades sociais são amplamente estudadas dentro da psicologia e dizem respeito a capacidade real e efetiva de resolver problemas e de propor comportamentos saudáveis. Geralmente estas habilidades sociais são classificadas de acordo com cada escola da psicologia, porém a mais simples descreve as habilidades sociais em cinco dimensões básicas:
- Capacidade de começar e terminar projetos, de forma objetiva;
- Capacidade de expressar sentimentos positivos
- Capacidades de expressar-se com fluência e domínio sobre a comunicação
- Capacidade de sentir anseios e vontades de modo adequado a ponto de realizar quando for adequado
- Capacidade de controlar a agressividade.
Geralmente pessoas com baixas habilidades sociais são as que mais adoecem psiquicamente. Pessoas com depressão e ansiedade têm, quase que invariavelmente, baixas habilidades sociais. Nas desvinculações amorosas a história não é diferente. Aqueles que têm maiores dificuldades de adaptação, aceitação e de aprendizagem são os que mais sofrem.
O modo como o relacionamento terminou também influencia na maneira como o “Day after” será vivido. Separações traumáticas tendem a ocasionar mais dor do que separações amigáveis. Separações que acontecem com traições escancaradas podem ser tão traumáticas quanto relacionamentos que terminam sem que um dos lados conte toda a verdade sobre o relacionamento. E aqui vai uma dica para as mulheres, que tendem a terminar relacionamentos com mais indiferença do que os homens: sempre que possível deixe suas intenções claras, nada de deixar subentendido ou achar que o outro lado entendeu. De um modo bem geral, homens tem dificuldades em entender os processos pelos quais uma mulher costuma passar e até mesmo um fim de relacionamento pode parecer, para os homens, como uma fase que irá passar.
Quem nunca ouviu que para esquecer um grande amor só com outro amor? Se isso ajuda? Sim, ajuda a esquecer, mas infelizmente nos poupa das aprendizagens que aquela vivência emocional é capaz de proporcionar. Obviamente que ninguém escolhe sofrer para aprender algumas lições que a vida dá, mas algumas vezes optamos pela dor, e não pelo amor, para aprendermos a nos valorizar, a nos cuidarmos e a termos mais cuidado com as nossas escolhas.
E você? O que aprendeu com o fim do seu último relacionamento?
Um amor de mockups
14/11/2008 - 13:04
Mockup é um artifício usado em muitas propagandas para fazer com que os produtos fotografem melhor. É o caso, por exemplo, do cafezinho com gelo seco (para dar a impressão de que está recém feito), do hambúrguer com todos os seus temperos bem separados (e feito de PVC) ou daquelas pétalas de rosas, feitas de resina, que caem do céu com uma leveza ainda maior que as pétalas originais. Ou seja, são protótipos, amostras idênticas ao que deveria ser real. Servem para auxiliar na simulação funcional do produto. Apesar de terem pesos, texturas, tamanhos e cores diferentes, são mais bonitos para quem vê de fora. É cada vez mais comum o uso de mockups e estes não são utilizados pela indisponibilidade dos objetos reais, mas pela sua fotogenia no marketing.
No marketing dos relacionamentos não é diferente, mas difícil é diferir os amores mockups dos reais. Quais seriam as bases de um relacionamento que não seria de mentirinha?
Confesso que esta questão aparece com freqüência em contextos clínicos e acredito que cada vez mais isso será comum. Em verdade, pelo que os especialistas apontam, um relacionamento mais “real” é aquele em que há o aprofundamento da intimidade, de planos futuros e da adaptação de um ao outro. É nesta tríade que percebemos que o casal cria uma identidade onde um se insere no espaço vital do outro cotidianamente.
Um amor de Mockup é aquele em que uma das partes serve prioritariamente para a exibição social e é baseado mais em idealizações que aparenta do que de funcionalidade real. Relacionamentos baseados apenas na percepção do que a pessoa significa demonstram uma dificuldade de aprofundamento da própria relação. Seja o que esta pessoa representa para a família, para os amigos ou o quanto se encaixa em um conceito de “perfeição social”, não importa, as pessoas são mais completas quando estão em relacionamentos realmente significativos.
Ter um Mockup significa dar satisfação social antes de ter um significado pessoal importante. Usar este manequim de loja é levar em festas seu último modelo de Mockup que é apenas moreno alto, bonito e sensual ou exibir para os amigos a sua Mockup namorada modelo 2008.2 que não vem com os opcionais de fábrica, mas que pagou por vários com o Dr Ivo Pitanguy.
É estar casada com um homem que é o pai de seus filhos, é um excelente marido, pai dedicado, mas que já não desperta mais nada. É estar casado em uma relação onde a esposa é extremante passiva nas coisas que faz, uma esposa que qualquer homem gostaria de ter e que os amigos dizem que seria loucura separar, mesmo não atraindo mais.
O problema destas relações é a sustentabilidade da mesma no tempo. Podem até durar muito tempo, porém a nulificação ou a farsa não compensam o esforço. A nulificação em um relacionamento é a anulação que um dos lados pode fazer para sustentar a mesma. Pode ser em forma de evitação de confronto, abandono de sonhos e de traços de personalidade em favor de uma idealização e felicidade que nunca vem completa. A farsa é a clássica infidelidade e as mentiras.
Diferente dos produtos de resina fabricados e que sempre estarão com o mesmo molde de forma, cor e textura a relações humanas são mutáveis. Em muitos casos, não todos, a relação que está mais formal do que “real” pode ter mudanças positivas e aquele Mockup que antes era só dor de cabeça pode se tornar uma pessoa apaixonante. Porém este processo de quase alquimia deve ser bem trabalhado e leva certo tempo. É necessário avaliar se a atual estratégia de transformar o manequim de loja em pessoa real está surtindo efeito. Em caso negativo procure um especialista.
É possível ser mais feliz nos relacionamentos. Temos um fantástico aparato neurológico e sistemas sociais que nos permitem viver a integridade da realidade, mas para isso é necessário abrir mão de 98% de nossas fantasias, investir nas nossas habilidades e no que é real.
E então... Alguém no seu relacionamento é Mockup?
Sobre Eloá e a ambivalência
20/10/2008 - 11:08
Não vou falar das trapalhadas da polícia, da crueldade do ex namorado ciumento e possessivo, da amizade com Nayara, do espetáculo que se tornou televisionar crimes, dos carrinhos de pipoca que já estavam ali na noite do primeiro dia de seqüestro, das placas de “aluga-se varanda com vista para o apartamento”, das entrevistas por telefone de Lindenberg ou dos protocolos internacionais relativos a seqüestro desrespeitados pela polícia e principalmente pela imprensa televisiva brasileira.
Não vou falar, mas devia. No entanto, como a coluna é sobre comportamento humano e exponho pontos importantes sobre amores obsessivos ressalto que um ponto ainda pouco discutido é o fato de Eloá e Lindenberg terem namorado por dois anos e sete meses e terem terminado dez vezes! Inicialmente assusta a idade, Eloá estava com quase 13 anos quando começou a namorar com este futuro assassino de 20 anos na época. A ausência dos pais, dos dois, em permitir tal ato é notável.
Desde o início do relacionamento é possível fazer algumas apostas sobre o futuro do mesmo. Seja pela agressividade, pelo ciúme ou pela dificuldade empática no relacionamento, sempre é possível tomar uma série de atitudes antes que o pior aconteça. Por dez vezes terminou o namoro e por nove vezes voltou. Isso lembra alguma coisa que é a peça motriz dos relacionamentos obsessivos? Sim, a ambivalência. Não é apenas uma teoria psicológica das relações humanas, mas sim uma estratégia na qual existe um estímulo a comportamentos cada vez mais ousados. Terminar dez vezes um relacionamento em trinta anos de casamento, por exemplo, é um sinal bastante ruim da qualidade desta relação, imagine em dois anos e sete meses. Acompanhem os últimos artigos aqui postados que vocês entenderão exatamente os efeitos da ambivalência.
A mente do “bandidão super-star das mais de 100 horas” foi formada ao longo de anos de machismo, de falta de limites, péssimos valores familiares e da naturalização dos atos de violência. Para Lindenberg era justificável e normal que ele tivesse o direito de fazer o que fez. Nas entrevistas televisionadas ficava muito clara a razão com que ele construía estas idéias. O alimento desta suposta razão obsessiva é a ambivalência. Este psicólogo que escreve deposita pelo menos 90% da culpa do péssimo desfecho da história na imprensa, pois fez a única coisa que jamais deveria ter feito: dar atenção e razão a história.
Errou a imprensa, errou a polícia, errou o ex-casal e erraram todos que estavam por perto que acreditavam que uma relação amorosa é natural em ter estas constantes crises de agressividade e imaturidade sem limites.
Infelizmente Eloá não estava atenta para o perigo disso e nem para as características de personalidade do tal Lindenberg. Ela ganhará lindas homenagens na televisão e depoimentos de milhares de desconhecidos em seu Orkut. Se fosse minha filha eu iria preferir que estivesse viva.
Até onde você é capaz de aceitar um relacionamento problemático de uma filha ou filho seu?
[PSICOLOGIA NOVA]
Psicólogo Alyson Barros
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