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Lyna Malheiros
Arte e Cultura

 

lyna.malheiros@gmail.com

 

É, o tempo não para... E passa... E envelhece...
27/6/2008 - 09:39

 

“Sobre a mesa
Eu criança
A Tesoura
O Tecido
A agulha,
E minha mãe
De cabeça baixa,
Falei surpresa
Uma linha
no seu cabelo,
Sorriu respondendo
Um fio de
cabelo branco,
O tempo
Costurava a vida”
(Ana Luiza Burlamaqui da Penha - vencedora do concurso Othoniel Menezes de poesia 2008)

É, o tempo não para... E passa... E envelhece...
Envelhece?
Quanto mais velho melhor o vinho!
E não é?
A Bossa Nova vai bem obrigada, e Nova!
O tempo vem... As coisas envelhecem e parecem se transformar.
A arte é feita de história, de velharias, de restos, de fósseis, de resquícios do que já passou também!

A velha arte, velha... E como a arte é velha! Antes de existir a ciência já existia a arte. Já dizia um velho professor meu! Ela vem desde a pré-história, desde que existe humanidade. A transformação da arte é o que a torna tão nova e atual. E toda essa velharia em frutos do sentir presente. Somos agora porque fomos no passado!

Paulo Autran morreu velhinho, mas no palco era de uma força descomunal, de dar inveja a muito jovem. Jamelão da Mangueira cantou até os 94 anos, e só resolveu nos deixar depois de 95 anos. E com a idade vem a experiência. E com as experiência a sabedoria. E com a sabedoria a verdade. E com a verdade a arte mais pura, livre de preconceitos.

A arte não envelhece, ela amplia seu olhar! E se fato é que todos envelheceremos um dia, porque não transformar isso em arte? Não sei o que vocês acham, mas acredito piamente que de alguma forma isso é possível, mas que essa receita não nos é passada, ela é encontrada de forma única em cada um de nós. Somos raros, como diz “O Teatro Mágico”. Cada um de nós já está em extinção, pois nunca existirá alguém como nós mesmos!

Então fica minha sugestão sonhadora, envelhecer na arte de sermos nós mesmos!



Até mais!



 

“Sêo Boiadêro por aqui choveu!”
28/5/2008 - 23:52

 

O fazer arte passa por um processo de dar um sentido próprio, pessoal e íntimo a algum aspecto da realidade. É mostrar como você vê algo, em outras palavras, como sendo algo comum, e pertencente ao cotidiano de tantos mexe com você. Ou seja, é algo muito íntimo, coisas que vêem da percepção de cada um, vem de como o mundo nos parece em nosso universo particular.

Pensei nisso nesses tempos de chuva. A chuva pode significar tanto... Particularmente adoro chuva, mas prefiro não desejá-la numa cidade não preparada para tal... Mas é como no filme “Cantando na chuva”, a chuva é tão bem vinda naquela cidade, tão bem vinda naquele momento, tão bem vinda na vida daquele homem... A chuva é tão feliz! Como na música de Vanessa da Mata “Ai Ai Ai”! É alegre! Limpa a alma e faz dançar, aproveitar! Mas aí volto pra realidade e me vejo em Natal, preocupada se vou poder chegar à casa da minha amiga para ensaiar se a chuva não parar...

Então pensei que se morasse no sertão talvez pudesse desejá-la mais e sem o sentimento de culpa de que se chover a cidade vai ficar toda alagada! Poderia então deseja-la com toda força e comemorar como Cordel do Fogo Encantado faz na música “Chover (ou Invocação Para um Dia Líquido)”. Chega emociona a gente o quão necessária é essa danada da chuva pro sertão! Mas não é que até pra isso me senti culpada! Acho que todos viram o que a chuva fez com o sertão esse ano. Como diz a música:

“Seu boiadeiro por aqui choveu
Seu boiadeiro por aqui choveu
Choveu que amarrotou
Foi tanta água que meu boi nadou”

E foi água pra todo canto mesmo, de se pedir trégua! O que não conseguiu acabar com a visão de muitos de a chuva ser fonte de energia, magia e amor! Tem forró pra cantar isso, como no grupo Falamansa e também tem pop pra comemorar, como com Sandy e Junior.

Tem a chuva de Gal Costa...

“Chuva de prata que cai sem parar
Quase me mata de tanto esperar
Um beijo molhado de luz sela o nosso amor”

Tem a chuva que lava a alma, que lava um amor como a chuva de Madonna...

“Rain
Feel it on my finger tips
Hear it on my window pane
Your love is coming down like
Rain
Wash away my sorrow
Take away my pain
Your love's coming down like
Rain”

Tem chuva que causa desastre, que mostra raiva e desespero como em tantos filmes de tragédia causada por chuva (Enchente : Quem Salvará Nossos Filhos ?)! Tem filme que mostra casal se reencontrando na chuva (Diário de uma Paixão) e tem peça que se passa durante uma chuva (O tempo da Chuva)...

Tem chuva que é gente como diz Carlos Drummond de Andrade:

”A chuva me irritava. Até que um dia
descobri que maria é que chovia.
A chuva era maria. E cada pingo
de maria ensopava o meu domingo.
E meus ossos molhando, me deixava
como terra que a chuva lavra e lava.
Eu era todo barro, sem verdura...
maria, chuvosíssima criatura! (...)”

E tem chuva que ilumina... Como diz Fernando Pessoa:

“(...)Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro (...)”

Tem chuva! E é isso que importa! Ela existe e já dá pano pra manga de muito sentimento! E é assim, chovendo e não chovendo que ela limpa a alma, e se veste de arte pra significar algo!
Pois então que chova! Ou não!

Até mais!



 

E moda é arte?
28/4/2008 - 01:25

 

Vocês acreditam que eu ouvi esse questionamento?
Pois sim, acreditem!
Alow!!! Imaginem que lindo se todos nós usássemos as mesmas roupas!
Todos como presidiários, ou estudantes de colégio religioso! Não mesmo!
Viva a moda!
Viva a possibilidade!
A criatividade!
A versatilidade!
Os estilistas!

Enfim, tudo o que nos permite ousar, e procurar em cada tendência nova nosso estilo!
Sim, porque seguir uma moda por seguir é, em poucas palavras: burrice! A moda existe pra abrir nossos olhos para as possibilidades! Novas tendências, novos tipos de tecidos, de cortes, de uso. Mas não é toda a moda que nos atrae, ou que combina com nosso estilo ou mesmo tipo de corpo. Simplesmente não faz sentido ir com a maré sem nem parar pra pensar! Existem sim roupas que não vão cair bem em você de jeito nenhum! Cruel dizer? Não! Pois existem outras que ao contrário vão ficar divinas em você!

Fato é que as possibilidades estão aí! E graças à Moda! Eu pessoalmente acho divino o trabalho de estilistas. Cara, eu posso até tentar, mas fazer o que eles fazem simplesmente não é pra mim! Admiro e bato palmas! E a gente tem mais é que prestigiar o trabalho deles.

Mas queria, antes de terminar, lembrar que é muito importante nos mantermos fiéis ao que gostamos ou não. Manter-nos únicos! Não cópias uns dos outros, usando a mesma roupa, mesmo cabelo, mesmo perfume, mesmo olhar, mesmo mesmo! Somo seres capazes de escolher e termos nosso próprio estilo! Vamos usar a moda a nosso favor, e não contra! Vamos usá-la para nos tornar únicos, não cópias! E viva a moda!

Fica uma dica: procurem saber mais sobre a moda através dos tempos, e vejam como, graças à criatividade alheia, mudamos sempre!

E de brinde, um poema, bem útil:

EU ETIQUETA

Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências.
Costume, hábito, permência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro.
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer principalmente.)
E nisto me comparo, tiro glória
De minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante, mas objeto
Que se oferece como signo dos outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.

Carlos Drummond de Andrade.


Até mais!



 

Culpada!
7/4/2008 - 16:02

 

Culpada! Culpada!
Eu, absolutamente culpada por deixar esta coluna tanto tempo sozinha!
Perdão! Perdão!
Ó como sofro!
Ó drama!
...
(gargalhadas)
...
Ai como é bom fazer drama! A vida sem drama não seria nada! Não teríamos inspiração pra nada. Quantas milhares de histórias estariam perdidas, não teriam sido criadas, não teriam nos feito chorar, ou até mesmo rir. Sim, rir! Eu tenho cá pra mim que existe uma linha muito tênue separando o drama da comédia. O chorar do rir! Chorar de rir! Ou rir pra não chorar!

Rir é o melhor remédio, dizem alguns... Já outros dizem que chorar faz bem porque limpa a alma... Então, pra acabar logo com tudo de ruim o negócio é chorar e rir, ou rir e chorar! Lógico!

Todo drama é bem aceito e assim também é toda crise de riso!

Vale chorar no cinema e depois ter seus amigos rindo porque seu rosto está inegavelmente vermelho, ou atrapalhar uma reunião, aula ou seminário com aqueles estouros de risada. Vale assistir drama e rir, e assistir comédia e chorar. Vale rir da própria desgraça e chorar de rir da desgraça dos outros (ah, ver alguém danar a cara num vidro é hilário, vamos admitir!).

Assim, também vale segurar ao máximo o riso no hospital ao ver seu amigo todo enfaixado e de olho inchado após ser atropelado, lembrando o quanto você sofreu antes de saber que ele estava bem!

A vida é um grande teatro! E assim como no teatro é feita dos dois, interligados, comédia e drama!

Nessas horas eu penso no símbolo do teatro como um símbolo de vida!



Hoje em dia os obstáculos do dia-a-dia têm sido levados a sério demais, e o poder do riso tem sido cada vez mais ignorado!

“Rir é uma obrigação!” disse Jô Soares em entrevista à revista Veja.

Temos mais é que rir mesmo dos comediantes que ridicularizam a situação da política do país pra que rindo nós possamos perceber que os ridículos somos nós que insistimos em colocá-los no poder para que eles possam mais uma vez rir da gente enquanto cometem os mesmos erros... Rindo!

A risada tem um papel importantíssimo na arte, e na vida! Como o choro!

Temos mais é que chorar mesmo ao ver uma menina de 6 anos ser morta possivelmente por seu pai. Chorar e pedir pra que não tenha sido o pai, pois pra mim é horrível saber que esta menina foi assassinada, mas pior ainda é imaginar que foi pelo próprio pai!

Rir e chorar caminham juntos, na vida e na arte!

E fazendo os dois só mostramos que somos, inevitavelmente, humanos!

Até mais!




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